Sou parte descontente de uma geração infeliz. Me interesso por música, cinema, literatura, política, moda, sociedade e consigo levar uma conversa que passa por inteligente. Começo frases com pronome oblíquo e cito autores que me defendem. Tenho memória fiel de coisas que nunca vivi. Sei quem foi Gene Vincent, conheço uma poeta muito boa que pouca gente leu, falo inglês com fluência, estudo francês, toco guitarra, bebo moderadamente, recomendo artistas e acadêmicos para amigos, conheço cinema, tenho opiniões moderadamente espertas sobre questões políticas e sociais, sou relativamente bem quisto. Ainda assim, sou parte descontente de uma geração infeliz.
Tudo aquilo que uso e usam pra me definir encaixa com um grupo absurdamente grande. Cresci ouvindo de parentes e professores que eu era diferente, inteligente, com um futuro brilhante pela frente. Cresci pra perceber que existem muitos como eu, e que meus gostos e talentos não acrescem em nada a máquina social. Precisava estudar, disso eu tinha certeza. Então estudei, e sei da anatomia de aracnídeos, de operações logarítmicas, da abolição da escravidão nos Estados Unidos, de neurose, psicose e perversão, de Dionísio e Apolo, e infindáveis detalhes carregados de beleza do nosso universo. Me falta algumas partes importantes, obviamente... Tenho dificuldades de perceber qual a intersecção dos conjuntos daquilo que sei fazer e daquilo que precisam que eu faça. Me dizem que tenho bom senso crítico, mas nunca vi ninguém que gostasse de críticas. Ouvi que sou um ótimo músico, mas que música é hobby, não profissão. Aprendi que me adapto bem a situações e funções novas, o que significa, de acordo com as más línguas, que sou vira casaca e não consigo ser leal a meus ideais. Me chamaram de engraçado, mas comédia ofende as pessoas.
Sou parte infeliz de uma geração que não sabe mais se faz o que ama, e nem se ama o que faz. Estudamos por todas as nossas vidas, e temos conhecimento acumulado que poderia ser motivo de inveja a nossos avós. Mas... E agora? De que forma aplicamos essa massa crítica de cultura impressionante? Somos cultores em nossos círculos, e podemos até impressionar grande número de ouvintes, mas nossas próprias vidas são uma bagunça. A quantia obscena de informações que temos acesso parece nos paralisar e fragilizar. Ouvimos de uma contemporânea que conseguiu chamar a atenção do mundo com algumas fotografias, e de repente nosso interesse em fazer outro tipo de fotografia é imbecil. Ou sobre o rapaz que ganha dinheiro com o app que criou, e de repente nossa ideia diferente soa tão simplista...
Eu não queria ser parte dessa geração. Sempre quis ser diferente, e chamar atenção por isso. Você também, se for honestx. E ouvimos por tanto tempo que éramos exatamente isso, que foi um choque perceber que condições sociais e econômicas semelhantes acabaram levando ao mesmo perfil nascendo mundo afora. Somos definidos como uma geração com incrível conhecimento, mas que nos falta alguma outra coisa, seja dedicação, resistência, coragem, ou qualquer outro detalhe que já ouvimos.
Sou parte descontente de uma geração infeliz, apesar de tantas qualidades boas que temos. Então talvez eu só precise abraçar isso agora...
Sou parte de minha geração.
Adonai Sant'Anna Filho
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